JANILSON MONTEIRO DO ESPÍRITO SANTO, O "CAFÉ"
Hoje pela
manhã, ao abrir o meu computador, leio uma notícia que me deixou profundamente
triste: a morte do Café, um dos meus velhos e inesquecíveis companheiros de redação
da sede velha, da sede nova e da sede novíssima de A Gazeta.
O
Janilson Monteiro do Espírito Santo fazia parte de uma família que colaborou para
o sucesso da Rade Gazeta, como a sua irmã Matilde, que foi a tesoureira da empresa
por longos anos, desde a sede velhíssima e a sede nova (as duas na General
Osório) e a novíssima, da Chafic Murad,
na Ilha de Monte Belo.
Pelas
manifestações de seus velhos companheiros de redação e por seus amigos de um
modo geral, fica demonstrado que o Café
sempre foi uma pessoa muito querida.
Ao dar
uma passada pelo Facebook do Café hoje pela manhã, descobri uma linda e
emocionante crônica que ele escreveu, no dia 26 de março, que pode ser considerada como uma mensagem de despedia. Leia, é emocionante.

A felicidade mora tão perto
"Hoje
eu acordei com uma vitalidade de fazer inveja à jovens de vinte anos. Estava
sem camisa, vestia apenas um calção. Depois de um alongamento fiz alguns
exercícios aeróbicos e dei um pique até a praia. O dia tinha acabado de clarear
e ainda tive tempo de ver aquele sol imenso e dourado se despedindo do mar.
Senti aquela água gostosa beijando meus pés. Deixei passar a primeira onda,
furei a segunda, dei um longo mergulho e depois vigorosas braçadas. Não vou
muito longe, pois sofro de câimbras, tanto que quando nado nunca uso as pernas.
Fiquei boiando com o olhar fixado no céu. Não canso em olhar aquele azul, é o
azul mais lindo que existe. Aproveitei uma onda mais forte para pegar um jacaré
que me levou até as areias da praia. Voltei pra casa, passei pelo portão dos
fundos e fui direto para o chuveiro. Tirei a areia do corpo, dei uma rápida
enxugada, para não levar a primeira das muitas broncas que levo todos os dias
da dona da pensão. Ainda enrolado na toalha, bebi um ovo quente e comi um pão
com mortadela, prefiro ao queijo e ao presunto. Vesti minha roupa e ainda
abotoando a camisa fui para o ponto de ônibus para enfrentar mais um dia de
trabalho. Eu sou diretor de imprensa da Prefeitura de Vila Vela. Pelo caminho
ia pensando que minha primeira tarefa seria preparar, para o prefeito, um
relatório sobre a reunião da Região Metropolitana da Grande Vitória.
Perto do Terminal de Carapina, o ônibus deu uma freada brusca e eu acordei. Estava em minha cama, sob dois cobertores e ainda sentia frio. Acordei apavorado pensando que tinha perdido o horário para ir trabalhar. Logo voltei à realidade lembrando que estava aposentado e que vivia como gato, ou seja: só fazia ou o que tinha vontade ou o que a dona da pensão mandava. Estava feliz, pois não sentia nenhuma dor, depois de quase quatro semanas com dores que quase me levavam a loucura, provocadas pela pancreatite. A primeira semana foi terrível, teve hora que pensei em mandar parar o trem da vida e descer, Deus me perdoe, pois só cabe ao Criador decidir qual é o nosso dia e nossa hora. A felicidade mora ao lado e não percebemos. Basta não sentir dor para sermos felizes. Só quem passa por estes tormentos é que enxergar está realidade. Até cerca de três anos atrás eu só usava remédio para pressão. Nunca, uma única vez, senti dor de cabeça em toda minha vida. Com a doença sumiu a fome. A última vez que me pesei estava apenas com 38,5 Kg. Isto, aos poucos, já estou superando. Neste ponto a dona da pensão tem sido uma grande companheira, me preparando vitaminas de frutas, sopas, minestras e os pratos de minha preferência. Devo muito a ela que ainda me acompanha nas consultas médicas e nos muitos exames que tenho feito.
Obs.: Este texto foi escrito na quarta-feira da semana e faz parte dos escritos que não posto. Escrevo todos os dias. Depois de uma vida escrevendo por obrigação profissional, hoje sinto necessidade de escrever."